Ganja Guest: @explicadu conta como surgiu o Circo Voador

O fundador do Hempadão conta pra gente a história do polo cultural mais importante da Cidade Maravilhosa.

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Quem vive no Rio de Janeiro certamente já visitou a lona mais contracultural da cidade. Se você for estudioso da trajetória do Rock no Brasil, com certeza já ouviu falar dele. O Circo Voador é um verdadeiro patrimônio material da liberdade e propulsão artística. Mas nem todo mundo conhece a fundo a história desse empreendimento. Então aperta um… que lá vem história.

Já tão tradicionalmente localizado abaixo dos arcos da Lapa, é até possível pensar que ele já nasceu ali, mas não. A primeira vez que a lona foi armada tinha endereço em Ipanema, na praia do Arpoador. Era janeiro de 1982, o país ainda vivia em resquícios da ditadura, mas artistas Perfeito Fortuna, Evandro Mesquita, Regina Casé, Patrícia Travassos, Luis Fernando Guimarães e tantos outros, se reuniram para consagrar o que seria um palco sagrado do underground musical brasileiro.

A ideia era que a montagem da lona azul e branca durasse apenas trinta dias, mas acabou durando três meses. O empreendimento gerou, além de tudo, muito ânimo e esperança acerca do poder transformador da arte. Então os responsáveis pelo projeto passaram a organizar mutirões no Complexo do Alemão (localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro). A trupe do “Circo sem Lona” ajudou na construção de casas, creches e associação dos moradores. 

Muita articulação política foi necessária para que a lona ganhasse um espaço definitivo. Então, em 23 de outubro de 1982, a Lapa recebeu o plantio de cinquenta e quatro palmeiras-imperiais, junto com a inauguração do… Circo Voador, no mesmo local onde está até hoje. Mas nem tudo foram flores nessa história e, infelizmente, a lona teve suas portas fechadas por um período. 

Acontece que, mesmo com todo prestígio no cenário musical nacional, o Circo Voador foi interditado pelo prefeito então eleito César Maia, em 1996. O que se conta sobre essa história é que ele e o prefeito anterior, Conde, teriam ido ao Circo comemorar a vitória das eleições. O show? Do Ratos de Porão (banda punk liderada pelo vocalista João Gordo). O resultado? Uma chuva de vaias. O que o prefeito fez? Nos dias seguintes, alegando diversas irregularidades, Cesar Maia resolveu fechar o Circo. Então a Cidade Maravilhosa permaneceu sem seu espaço de resistência cultural, até que em 2002 começaram os primeiros movimentos pelo retorno do Circo.

Uma nova legião de artistas e militantes abraçaram a ideia e ocuparam o canteiro de obras do espaço que era destinado ao Circo Voador. A reconstrução valeu a pena, pois em 22 de julho de 2004 a casa de espetáculos pode ser reaberta, com capacidade para 2.500 pessoas. A lista de grandes nomes da Música Popular Brasileira que passaram por ali é infinita. O tamanho e importância desse palco é difícil de ser medida. Os responsáveis por esse empreendimento impulsionam a cultura carioca e brasileira tal como jamais imaginaram poder fazer. 

Local de liberdades asseguradas, espetáculos de qualidade e uma linda vista para os Arcos, o Circo Voador é um pilar da cultura canábica brasileira. Aquele palco já pingou tanto suor de gênios da música quanto a lona recebeu fumaça.

Se tiver a oportunidade de visitar o Circo, faça isso. Vai valer a pena.   


Cadu é carioca, jornalista, DJ selecta de vinil, e fundador e autor do Hempadão, primeiro veículo sobre maconha do Brasil. Você verá textos dele sobre música e cultura pelo Ganja Talks aos sábados.

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