A rã-kambô é típica da Amazônia, possui uma toxina que causa efeitos alucinógenos e é utilizada por indígenas para curas físicas, emocionais e espirituais.

(Imagem: reprodução Portal Amazônia)

A Phyllomedusa bicolor, também conhecida como rã-kambô, secreta uma substância tóxica para se defender de seus predadores.

O animal de cor verde brilhante vive principalmente na selva do Estado do Acre, no noroeste do Brasil, mas também pode ser encontrado em outros países amazônicos, como Bolívia, Colômbia, Guiana, Peru e Venezuela.

Tradicionalmente, grupos indígenas brasileiros como os katukinas, kaxinawás e yawanawás, entre outros, usam o kambô em rituais para reforçar o sistema imunológico.

Para isso, caçam a rã, que é identificada a partir do seu coaxar característico. Depois, amarrando as quatro extremidades do animal, extraem a toxina coçando suas costas com uma espátula.

Tradição indígena

Acredita-se que o kambô induza a uma limpeza profunda do corpo e da alma, dando forças e curando doenças.

De acordo com as crenças de tribos indígenas, ao extrair a substância, é fundamental respeitar (e não prejudicar) a rã. Eles acreditam que o espírito animal que é responsável pelo processo de cura, e ao machucá-la, o processo de cura não se cumpre. Uma vez que o kambô é obtido, a rã é liberada.

Para aplicar o kambô, deve-se fazer uma queimadura superficial na pele da pessoa com um bastão queimado (tradicionalmente conhecido como titica).

O kambô é então colocada na queimadura e os efeitos começam.

A chamada “vacina do sapo” age no corpo por cerca de 15 minutos, provocando alucinações, e é utilizada no fortalecimento da imunidade e afastamento do “panema” (má sorte).

Apesar das crenças acerca dessa toxina, não existem estudos sobre o potencial farmacológico e propriedades medicinais dessa substância. Cientistas advertem que as propriedades “milagrosas” não foram comprovadas.

Curandeiros

Porém, recentemente, esses rituais vêm sendo realizados por pessoas que não têm ligação com as culturas indígenas.

Em entrevista para a BBC, um curandeiro afirma que o kambô “atua em três frentes – física, mental e espiritual. E no alinhamento do ser para sua cura completa”.

Alguns desses rituais de cura que acontecem fora das culturas indígenas são feitos por pessoas que se denominam curandeiras e a aplicação é feita como nos rituais indígenas.

A dose – o número de pontos – e a periodicidade da aplicação dependem da idade e constituição da pessoa, assim como do número de vezes que ela utilizou a substância, explicam os curandeiros.

O número de pontos, por sua vez, depende do sexo, da idade e da constituição física do paciente.

“É uma reação física ao veneno de um sapo. Você fica envenenado por um tempinho”, complementa.

Ao final dos 15 minutos, o paciente vomita e sente uma sensação de alívio. Cientistas dizem que essas reações são consequência do envenenamento. Já os adeptos da prática dizem que isso acontece porque a substância está eliminando toxinas e outros males do organismo.

O curandeiro também conta que atende pessoas com todo tipo de problemas, desde viciados a pacientes com depressão e fibromialgia.

Outros profissionais que se dizem versados nas artes do kambô oferecem o tratamento contra inflamações, cansaço, tendinite, dor de cabeça, asma, rinite, alergias de todo tipo, úlceras, diabetes, problemas de pressão, colesterol alto, estresse, crises de ansiedade e redução da libido.

O que a ciência diz

Segundo o biomédico Leonardo de Azevedo, do Instituto Oswaldo Cruz, em São Paulo, o veneno contém substâncias opióides – como as deltorfinas e as dermorfinas – que aliviam a dor e produzem uma sensação de bem-estar.

Portanto, o que os usuários estão vivenciando é uma reação biológica momentânea às substâncias químicas presentes no veneno.

Outras moléculas presentes na substância extraída da rã-kambô têm demonstrado, em laboratório, propriedades antimicrobianas, destruindo bactérias, protozoários, fungos e lombrigas.

Por isso, o veneno da kambô é citado em vários estudos que apontam seu potencial futuro no combate às superbactérias (bactérias resistentes a antibióticos).

Mas tratam-se de estudos feitos em laboratório, ressaltou Azevedo. “É preciso muita pesquisa para avaliar se (a substância) também é eficiente lá fora”, disse à BBC.

Na opinião dos cientistas, o uso do kambô não é seguro.

Em 2004, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a propaganda sobre o procedimento, bem como a venda da substância.

Há dez anos, os próprios índios amazônicos que usam a substância alertaram para os perigos do uso indevido e não autorizado, feito por xamãs inexperientes, do veneno.

Até o momento, houve dois relatos de mortes de usuários do veneno. No entanto, não há provas de que as mortes tenham ocorrido em decorrência do uso da substância.

Fontes: BBC; El Planteo e Portal Amazônia.

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