Especialistas explicam sobre efeitos, benefícios e riscos em potencial da microdosagem de algumas substâncias psicoativas.

Microdosing. Small Doses of LSD Used for Microdosing

Não há definição científica de microdosagem, mas geralmente significa tomar 1/20 a 1/10 da dose usual de alguma substância.

Muito tem se falado sobre microdoses de maconha e psicodélicos, mas o mundo da microdosagem é muito maior do que isso.

DMT e ibogaína, por exemplo, também podem ser microdosados e bem aproveitados.

Diferentes substâncias têm efeitos diferentes, mas existem algumas maneiras universais de mitigar seus riscos e aumentar seus possíveis benefícios.

Especialistas sempre dizem que ao usar algo novo, é sempre melhor começar com a dose mais baixa e ir aumentando.

Pelo fato da maioria das substâncias psicoativas ainda não serem regulamentadas, você pode estar ingerindo algo com outras coisas misturadas. Portanto, quanto maior a dose, maior o risco.

Peter Freed, professor de psiquiatria da Columbia University, afirma que ”a grande preocupação é que, quando as pessoas compram essas substâncias, elas não estão recebendo coisas de alta qualidade”.

Outra razão para ir devagar – seja microdosando uma vez ou repetidamente ao longo de dias, semanas ou meses – é evitar a construção de tolerância.

É melhor esperar alguns dias após a microdosagem antes de tomar qualquer coisa novamente, disse Matthew Lowe, diretor de pesquisa da Unlimited Sciences, que atualmente está realizando um estudo (com a Universidade John Hopkins) sobre os resultados de saúde associados a doses de psilocibina. “Um ciclo de três dias é comumente praticado, seguindo o ‘Cronograma Fadiman’, onde por 48 horas, você permanece livre de substâncias”, disse ele, “e no terceiro dia, você faz uma microdose”.

Mas funciona?

Muitos estudos apontam para os benefícios da microdosagem, mas existem controvérsias.

O maior estudo realizado até hoje, controlado por placebo, sobre microdosagem com psicodélicos mostrou que houve, sim, melhorias na vida dos participantes que consumiram as microdoses, desde saúde mental até cognição e produtividade. Porém, quem tomou o placebo também relatou tais melhoras.

Ao mesmo tempo, explicações científicas parecem confirmar os efeitos da microdosagem para melhorar a saúde mental.

“Os psicodélicos tendem a promover a formação de novas conexões neurais e aumentar a neuroplasticidade”, disse a psicóloga clínica Holly Schiff, referindo-se à capacidade do cérebro de mudar. O efeito é apenas temporário, mas quando está acontecendo, “apresenta uma janela de oportunidade para melhorias psicológicas e comportamentais por meio da psicoterapia”. Em suma, a microdosagem pode ser mais benéfica durante a terapia.

Além disso, a microdosagem pode ser uma boa aliada na psicoterapia com psicodélicos pois, como mencionado, usar doses muito altas diversas vezes em sequência pode trazer riscos.

Outro grande ponto a favor da microdosagem é que pacientes que não estão acostumados com efeitos alucinógenos (ou têm medo ou algum pré-conceito), podem experienciar os benefícios das substâncias sem sentir as sensações psicodélicas – infelizmente, ainda estigmatizadas.

Para entender melhor as nuances da microdosagem de diferentes substâncias, a VICE conversou com uma ampla variedade de pesquisadores e usuários sobre os efeitos esperados, possíveis benefícios e riscos.

Psilocibina

Microdose comum: 0,1-0,3 g de cogumelos secos do tipo Psilocybe.

A microdosagem de cogumelos geralmente envolve comer cogumelos puros, chocolates de cogumelos ou tomar cápsulas contendo pó de cogumelo moído.

As microdoses adequadas não devem causar efeitos alucinatórios, mas podem criar uma sensação de “leveza” ou estar “no fluxo”.

Um consumidor de microdoses de cogumelo relatou à VICE: “acho que a microdosagem traz mais presença às minhas atividades regulares, seja meditar, passear, socializar ou trabalhar”, explicando que os cogumelos o fazem se sentir mais conectado à natureza e às pessoas.

Algumas outras pessoas relataram melhorias no humor, qualidade do sono, criatividade e foco.

Laura Dawn usa microdoses de cogumelos para “acessar os estados de fluxo” antes do trabalho. “Eu era aquela garota que odiava a escola, e microdosar pequenas quantidades de psilocibina me ajudou a gostar de aprender e manter o foco matinal”, disse Dawn.

Uma outra consumidora que sofre de insônia relacionada à síndrome da fadiga crônica relatou que a microdosagem pela manhã a ajuda a dormir à noite. “Os resultados duram cerca de uma semana, mas [minha insônia] não volta à gravidade [que eu experimentei] antes de iniciar a microdosagem”.

Especialistas destacam que a psilocibina pode trazer emoções muito intensas, para algumas pessoas, emoções negativas. Por isso, ao começar com o mínimo possível, o usuário pode monitorar qualquer emoção difícil.

LSD

Microdose comum: 10-20 microgramas (preparar uma microdose do ácido lisérgico significa cortar uma pastilha de ácido em, pelo menos, 10 pedaços).

Muitas pessoas afirmam que a microdosagem com o ácido lisérgico aumenta a produtividade e criatividade.

“A energia positiva era muito diferente do meu dia de trabalho típico movido a café”, disse um consumidor. “As microdoses pareciam melhorar meu humor, me dar um foco incrível e diminuir minha dor crônica.”

Do ponto de vista científico, “dados anedóticos sugerem que o LSD produz uma resposta energética, mais criatividade e melhor funcionamento cognitivo e habilidades de resolução de problemas”.

No entanto, a onda de energia que algumas pessoas obtêm pode ser uma desvantagem: mesmo após a microdosagem de LSD pela manhã, podem haver problemas para adormecer à noite.

Uma coisa a ter em mente é que o LSD tem um limiar alucinógeno mais baixo do que os cogumelos – ou seja, é mais fácil alucinar com ácido.

Para algumas pessoas mais sensíveis, a cinética de como eles processam o LSD permite que ele se ligue de uma maneira que pode produzir um início rápido e pode proporcionar sensações alucinógenas – mesmo em poucas quantidades.

DMT

Microdose comum: 0,5-1,0 mg

O DMT é conhecido como uma droga que pode levá-lo a outras dimensões, mas quando é microdosado, algumas pessoas relatam ser capazes de permanecer no chão e passar seus dias com uma sensação de inspiração.

Seja feito em laboratório, derivado de plantas, ou, no caso do 5-Meo-DMT, feito de veneno de sapo, o DMT pode ser vaporizado, fumado (no Brasil, pode ser encontrado como ”changa”) em cachimbo ou cheirado.

Das opções de microdosagem, o DMT é a mais espiritual para alguns usuários.

“O DMT é um alucinógeno muito potente com efeitos enteogênicos e psicodélicos muito fortes, mesmo com doses menores”, disse James Giordano, professor de neurologia da Universidade Georgetown.

Alguém que faz microdoses dessa substância pode se sentir “mais criativo, expansivo e menos limitado por processos de pensamento”, mas também pode ter alucinações involuntárias.

Mescalina

Microdose de peiote comum: 10 g fresco ou 0,9 g seco
Microdose de San Pedro comum: 10–20 g fresco ou 3–5 g seco

Peiote e San Pedro podem ser destilados em pó e encapsulados. Esses cactos contém um composto chamado mescalina, que pode causar efeitos alucinógenos em altas doses. A mescalina pode levar a um aumento da consciência, intuição e foco em microdoses, juntamente com uma sensação de “descarregamento emocional”, de acordo com Giordano.

Um consumidor relatou que a microdosagem de peiote o deixou “mais focado em qual é meu caminho e em quem eu quero ser” e o ajudou a “abordar as coisas com mais calma e leveza em minha vida diária”.

Pode ser uma boa opção para aqueles que buscam uma sensação de paz interior ou redução do estresse.

Um risco em particular é o “acúmulo de dose” devido à forma como a mescalina é armazenada e metabolizada no corpo, disse Giordano, que adverte contra a ingestão várias vezes ao dia. “Mescalina não é algo que você queira tomar ao longo do dia em microdoses. Você pode obter um efeito macro com o tempo.”

Ayahuasca

Microdose comum: 50 g preparado

O chá alucinógeno conhecido como ayahuasca tem dois componentes: o cipó, que contém inibidores da monoamina oxidase (IMAO) que facilitam o processamento do DMT no cérebro, e a planta produtora de DMT.

A microdosagem apenas da videira, geralmente na forma líquida, pode aumentar a atividade nos sistemas cerebrais de dopamina, norepinefrina e serotonina, bem como a própria produção de DMT.

Embora a microdosagem direta de DMT possa levar a uma maior abertura e perspicácia, a microdosagem do componente IMAO da ayahuasca pode causar “aumento da vigilância, diminuição da fadiga e melhora da percepção”.

“A microdosagem [dos IMAO da ayahuasca] me ancora profundamente no momento presente”, relata um consumidor. “A tagarelice da mente desaparece e posso ver e saber claramente pela minha intuição e pelo meu coração. Eu caio em uma sensação de paz que alivia e cura a mente preocupada. Em geral, ainda consigo fazer o meu dia – trabalhar, correr, fazer o jantar – mas tudo com uma profunda reverência pela vida.”

Os possíveis riscos: a ayahuasca pode levar a alterações na pressão arterial, frequência cardíaca e possivelmente náuseas e vômitos, portanto, proceda com cautela.

Ibogaína

Microdose comum: 25 mg concentrado ou 50-100 mg em pó

A ibogaína é derivada de um arbusto africano chamado iboga.

Tem sido usado para combater o vício em drogas, tratar outros problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, e induzir experiências espirituais poderosas.

Uma microdose, tomada como cápsula ou na forma de lascas de madeira moída, pode levar a efeitos como aumento de energia e estado de alerta. “Isso faz as pessoas se sentirem cognitivamente conscientes, muito mais sensíveis e apreciativas de percepções sutis”, disse Giordano. “Também tende a aumentar sua sensibilidade relacional e empatia.”

Uma médica do México, que faz microdosagens de ibogaína há vários anos, relatou: “esta planta mudou drasticamente meu relacionamento comigo mesma, minha identidade e meu papel na sociedade. Através da cura da iboga, agora entendo quem sou como alma.”

As pessoas que tomam a microdosagem de ibogaína geralmente podem realizar seus trabalhos e outras funções diárias e, de fato, muitas vezes melhora sua capacidade de pensar com clareza e se concentrar.

Em altas doses, a ibogaína pode diminuir a frequência cardíaca para níveis potencialmente perigosos e, embora isso seja mais raro durante a microdosagem, pessoas com qualquer tipo de anormalidade cardíaca devem evitá-la.

MDMA

Microdose comum: 20-40 mg

Os mesmos efeitos que você obtém com uma dose maior de MDMA, você poderá obter em menor grau com uma microdose. “O MDMA cria sentimentos de proximidade e intimidade com os outros e uma perspectiva e estado emocional geralmente positivos, bem como maior sensibilidade ao toque, visão, olfato e som”, disse Shafir.

Se forem feitas microdoses de MDMA repetidamente em um curto período de tempo será obtido o efeito de uma dose completa. Quanto mais você toma, maior o risco de sofrer distúrbios do sono ou ressaca no dia seguinte.

Também é importante manter-se hidratado, pois o MDMA pode desidratá-lo mesmo em pequenas doses.

Cetamina

Pesquisas – ainda que limitadas – sugerem que macrodoses de cetamina ajudam na depressão e ansiedade. E um estudo da Frontiers in Pharmacology descobriu que baixas doses de cetamina melhoram a motivação e a atenção em ratos.

Nem todos os especialistas concordam que a cetamina pode ou deve ser microdosada. “A cetamina é extremamente volátil e poderosa”, disse Giordano, que adverte contra a microdosagem de cetamina em parte porque é difícil dosar adequadamente. (Como ele não acha uma boa ideia fazer microdoses de cetamina, ele não sugere qualquer medida de dose.)

A dosagem inadequada pode causar desequilíbrios no neurotransmissor serotonina, que podem exacerbar a ansiedade ou a depressão.

No entanto, quem testou descreve a microdosagem de cetamina (usando um comprimido sublingual) como “a melhor meditação que já experimentei”, acrescentando: “Eu não tropecei, mas me senti um pouco como se estivesse flutuando acima do meu corpo, completamente relaxado e em contato com meus pensamentos e sentimentos no momento.” Depois de fazer isso semanalmente por seis semanas, o consumidor que fez o relato se sentiu mais calmo do que em anos e, embora ainda lide com a ansiedade, ele disse que é mais fácil de lidar.

Ponto de atenção

Apesar de algumas descobertas promissoras e experiências anedóticas, é importante lembrar que nenhum protocolo de microdosagem é infalível.

“A maioria dos microdosadores experimenta tanto a dosagem específica quanto a frequência com que eles dosam – por exemplo, todos os dias, em dias alternados, algumas vezes por semana – para encontrar o que funciona melhor para eles”, disse Shafir. “Esse processo geralmente envolve muitas tentativas e erros, e é comum que as pessoas descrevam acidentalmente tomar uma dose muito alta e sentir efeitos mais fortes do que esperavam.”

Por isso, para quem está buscando a microdosagem como uma tratamento terapêutico, é importante fazer com um profissional habilitado.

Por fim, Shafir acrescentou: “os psicodélicos não são uma ‘cura mágica’ para ansiedade, trauma [ou quaisquer outras condições ou preocupações de saúde mental], e só funcionam quando uma pessoa é capaz de processar seus sentimentos e experiências, muitas vezes com a ajuda de um terapeuta treinado”.

Ou seja, a microdosagem pode funcionar muito bem para alguns ou pode ser apenas um placebo moderno para outros. De qualquer forma, como a maioria das coisas, vale tentar entender se funciona para você. Afinal, pode ser uma alternativa melhor do que medicamentos tradicionais com efeitos adversos.

(Texto publicado originalmente na VICE)

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