Para quem quiser aprender mais sobre o universo psicodélico, nada melhor do que ‘mergulhar’ na literatura dos alucinógenos.

Com o recente aumento do interesse em psicodélicos, vários livros trazem diferentes visões sobre o tema: desde obras que relatam experiências com as substâncias até materiais científicos.

Para quem é novo no assunto, mas também para quem já se considera ”experienciado”, aprender sobre psicodélicos nunca é demais. Essas substâncias ainda apresentam muitos mistérios e, seja por curiosidade ou para saber mais, alguns livros podem ajudar!

Separamos algumas obras para te auxiliar nas suas viagens psicodélicas (demos preferência para livros que já possuem versão em português, mas duas obras presentes na lista – que parecem fundamentais na literatura psicodélica – são em inglês).

1. As portas da percepção (Aldous Huxley)

Em 1953, o autor de ”1984” e ”Admirável Mundo Novo” (Aldous Huxley) tomou mescalina, um psicodélico obtido do cacto peiote, e então começou a registrar sua experiência.

Pesquisadores e historiadores psicodélicos acreditam que seus diários, publicados neste livro, moldaram as maneiras pelas quais as pessoas agora descrevem suas experiências durante estados expandidos de consciência.

A leitura em si é uma viagem – e os insights poéticos, filosóficos e psicológicos de Huxley ainda ressoam hoje.

Fun fact: há quem diga que a banda ”The Doors” escolheu esse nome por conta do livro do autor (em inlgês: ”The Doors of Perception”).

2. Psiconautas: Viagens com a ciência psicodélica brasileira (Marcelo Leite)

Em Psiconautas, fruto de uma extensa pesquisa, Marcelo Leite conta a história das principais drogas psicodélicas, desde sua descoberta no século 20 até o uso medicinal revolucionário que vem sendo feito de cada uma delas atualmente.

Mesclando relatos da própria experiência com várias dessas substâncias ao perfil dos principais pesquisadores da área, muitos deles brasileiros, Leite oferece um panorama completo do chamado renascimento psicodélico, desfaz mitos e aponta para conquistas científicas há pouco tempo impensáveis, como tratamento para a dependência química, a depressão e a síndrome do estresse pós-traumático, entre outros benefícios ainda sendo pesquisados.

O livro recebeu um prefácio de Sidarta Ribeiro que, junto a Luís Fernando Tófoli, Stevens “Bitty” Rehen e Dráulio de Araújo, compõe o grupo dos psiconautas brasileiros que guiaram Marcelo em suas explorações.

3. A experiência psicodélica (Timothy Leary, Ralph Metzner e Richard Alpert)

Para quem não conhece, Timothy Leary (autor principal desse livro) ficou conhecido como o guru do LSD na década de 1960.

Leary era Professor da Universidade de Harvard e, após suas experiências com psicodélicos, passou a defender os benefícios de tais substâncias.

Mas, depois de ter promovido uma experiência psicotrópica com uma turma inteira de estudantes de psicologia (com o consentimento destes, naturalmente), Timothy Leary foi expulso de Harvard.

Mesmo assim, o Professor passou a dedicar sua vida e pesquisas aos possíveis usos dos psicodélicos como um modo de transformação do comportamento e da personalidade.

Foi a partir desse evento que Leary se juntou a outros dois psicólogos da Universidade de Harvard e escreveu ”A experiência psicodélica”.

Lançado em 1962, o livro é um ensaio pioneiro e um guia para se romper as barreiras da mente por meio da ingestão de alucinógenos, permitindo a expansão da consciência.

Meio século após a década que ficaria marcada como um dos períodos de maior quebra de paradigmas sociocomportamentais do século XX, o uso de psicodélicos ainda é discutido à luz da ciência, mas na prática, permanece um tabu.

Uma reavaliação do uso de alucinógenos precisa levar em conta os aspectos positivos e negativos de seu consumo no curto e no longo prazo. Foi pensando nisso, e com base em uma interpretação única do Livro tibetano dos mortos, que Leary, Metzner e Alpert criaram este livro, que certamente foi usado por milhares de pessoas ao longo dos anos como um ponto de partida para quem, de outra forma, mergulharia em uma viagem alucinógena sem qualquer contextualização.

4. Como mudar sua mente (Michael Pollan)

Michael Pollan é jornalista e Professor da Universidade de Berkley.

Conhecido por pesquisar sobre alimentos, plantas e a influência disto em nossas vidas. Já publicou livros sobre psicodélicos e sobre a maconha, uma das suas obras principais sobre o tema é ”This is Your Mind on Plants”, onde ele se aprofunda na nossa relação com três plantas psicoativas: café (cafeína), papoula (ópio) e peiote (mescalina).

A obra ”Como mudar sua mente”, o autor relata como as drogas psicodélicas podem transformar vidas.

Após se debruçar sobre a história social dos alimentos em suas obras anteriores, o jornalista Michael Pollan parte em busca de uma compreensão aprofundada da psique humana e de como as substâncias psicodélicas poderiam auxiliar tratamentos médicos. 

”Como mudar sua mente” conta a história do renascimento das pesquisas com esses compostos depois de anos de coibição e esquecimento. Pollan se dedicou a variadas experiências com alucinógenos e notou que eles também seriam capazes de melhorar a vida de pessoas saudáveis.

Em uma impressionante jornada de caráter tanto científico quanto pessoal, Pollan mergulha nos mais diversos estados da consciência e apresenta os progressos que essas substâncias trazem para os estudos mais recentes da neurociência, revelando que os benefícios terapêuticos das substâncias psicodélicas são indissociáveis das experiências de transcendência proporcionadas por elas. 

5. O Teste do Ácido do Refresco Elétrico (Tom Wolfe)

A história por trás desse livro começa com o encontro de Ken Kesey (autor da obra ”Um Estranho no Ninho”) e Timothy Leary.

Os dois partiram em uma viagem em um ônibus psicodélico. A estrada serviu como o palco ideal para a construção de um universo paralelo em busca de experiências com LSD e maconha.

O escritor Tom Wolfe narra essa saga no livro ”O Teste do Ácido do Refresco Elétrico”.

(Imagem: reprodução Zona Curva)

O livro é divertido, ao mesmo tempo em que explora seriamente os numerosos fenômenos psíquicos e as consequências sociais inerentes à experiência do ácido.

O livro descreve uma “árvore genealógica” primitiva de alguns dos pioneiros psicodélicos mais influentes da época, incluindo Timothy Leary, Ken Kesey, Jerry Garcia, Neal Cassady, Allen Ginsberg, The Beatles, Bob Dylan e uma abundância de principais artistas daquela década.

Este é o relato de um insider sobre o quão extravagante, groovy, divertido e às vezes perigosamente delirante, a primeira onda de psiconautas movidos a LSD poderia chegar.

Mais um romance do que uma peça de jornalismo, a obra traz a história de uma mudança na consciência ocidental que ocorreu ao longo da década de 1960.

6. Psicodélicos no Brasil: Ciência e Saúde (Fernando Beserra e Sandro Rodrigues)

Ciência e saúde é o tema do primeiro volume da coleção ”Psicodélicos no Brasil”, organizada por Fernando Beserra e Sandro Rodrigues, cofundadores da Associação Psicodélica do Brasil (APB).

A coleção nasce no intuito de manifestar e expressar uma pequena fração dos conhecimentos que se acumulam e transformam a ciência, a arte, a cultura e a militância psicodélica em nosso país, ao longo dos últimos anos.

Os nove capítulos que compõem este primeiro volume, escritos por cientistas, profissionais de saúde e militantes antiproibicionistas, integrantes da APB e convidados externos, abordam algumas questões éticas envolvidas na pesquisa científica com psicodélicos, desafios para a implementação da psicoterapia aliada ao uso de psicodélicos no Brasil, aspectos contraditórios da microdosagem, relações entre redutores de danos e posto médico em contexto de festa, o uso de plantas de poder em florais e fitoterapia e os potenciais terapêuticos da psilocibina, da ibogaína, da ayahuasca e da changa.

Em sua diversidade, os textos aprofundam debates específicos nos campos da saúde e da ciência, no intuito de estimular mergulhos profundos na psicodelia brasileira e ao mesmo tempo a partilha de uma ética do cuidado político e social a cada imersão.

7. O Alimento dos Deuses (Terence McKenna)

O etnobotânico Terence McKenna explora a relação da humanidade com as plantas que alteram a mente do passado ao presente, argumentando que perdemos a compreensão xamânica de seu significado.

McKenna é um dos pesquisadores e autores mais influentes sobre o tema. Seu trabalho é fascinante e inclui outras obras sobre psicodélicos.

”O Alimento dos Deuses” é um dos mais famosos e, ainda que denso, dizem que é essencial para a compreensão do uso psicodélico moderno.

8. The Long Trip: A Prehistory of Psychedelia (Paul Devereux)

Este livro mostra como os psicodélicos têm sido usados por sociedades humanas em todas as partes do mundo para fins rituais e espirituais por mais de um milênio.

O livro está cheio de evidências para as experiências psicodélicas de várias culturas pré-históricas e pondera as implicações e efeitos das revelações psicodélicas em nossa visão de mundo contemporânea.

Também mostra que provavelmente estamos passando por um momento raro na história da humanidade, onde não temos uma estrutura cultural para o uso de psicodélicos na sociedade.

9. LSD: My Problem Child (Albert Hofmann)

Albert Hofmann foi o criador do LSD, tendo sintetizado, pela primeira vez, a dietilamida do ácido lisérgico (LSD) em 1938.

Impulsionado pela intuição, ele a sintetizou novamente em 1943 e, por acaso, notou seus profundos efeitos em si mesmo.

Após a descoberta das propriedades do LSD, Hofmann passou anos pesquisando plantas sagradas. Ele conseguiu isolar e sintetizar os compostos ativos no cogumelo Psilocybe mexicana, que ele chamou de psilocibina.

Durante os anos 60, Hofmann fez amizade com personalidades como Aldous Huxley, Gordon Wasson e Timothy Leary.

Nesse livro, Hofmann conta a história de suas descobertas. O autor nos leva ao coração do processo que levou à descoberta do LSD.

O livro é muito detalhado sobre os aspectos químicos e culturais dos alucinógenos, com uma visão pessoal das propriedades espirituais e metafísicas dos psicodélicos e os benefícios espirituais dos alucinógenos. Hofmann ainda traz considerações cuidadosas sobre ventos relacionados ao seu uso indevido de tais substâncias.

Existem muitas outras obras sobre o tema, mas essas são consideradas, por especialistas, como as mais relevantes. Se você tiver alguma indicação, compartilhe nos comentários!

Imagem de capa: reprodução Double Blind

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