A caça às bruxas, que aconteceu durante os séculos XV ao XVIII, surgiu em meio à Inquisição da Igreja Católica, e envolveu perseguição religiosa e cultural de mulheres curandeiras, herbalistas e parteiras, bem como de plantas sagradas, como a maconha. 

(Imagem: reprodução The Guardian)

Antes da dominação católica entrar em cena, herbalistas mulheres (que ficaram conhecidas como bruxas, por possuírem ”poções” de cura) usavam cannabis em suas pomadas e preparações medicinais. 

Com a Inquisição (período em que a Igreja Católica perseguiu hereges e todos que estavam contra os dogmas do Cristianismo), essas mulheres foram torturadas e mortas. 

Até hoje, uma ideia de negatividade está associada a essas figuras, que nada mais eram do que mulheres que possuíam seus próprios métodos de cura. 

(Imagem: reprodução Brewminate)

Curandeiras pagãs e plantas sagradas

Desde o século XI, festivais pagãos realizavam oferendas a divindades utilizando ervas sagradas, a maconha era uma delas. 

Curandeiras pagãs, mulheres sábias, usavam cannabis para uma série de benefícios. 

Curiosamente, algumas das primeiras evidências do uso da cannabis para fins medicinais, no período, vêm dos escritos da famosa herbalista Hildegard von Bingen, da Alemanha (1098-1179). 

A partir de seus aprendizados com mulheres pagãs sábias, ela conheceu os poderes de cura da cannabis. Em sua famosa obra ”Physia”, em um verbete intitulado “Of Hemp”, ela escreve que “o cânhamo é saudável para as pessoas ​​comerem, pode ser facilmente digerido, diminui os maus humores e fortalece os bons”.

A influência sem precedentes de Hildegard von Bingen, na farmacopéia alemã, garantiu que os remédios com ervas – incluindo a cannabis – se tornassem comuns em toda a Europa, especialmente quando surgiu a peste negra. 

(Imagem: reprodução Infocannabis)

Maconha contra a peste negra

Durante o período da peste negra, no século XIV, que assolou a população europeia, um remédio herbal, chamado Unguentum Populeum, era oferecido aos doentes para amenizar as dores da doença. 

Segundo o pesquisador alemão Herman de Vries, as receitas do Unguentum Populeum continham cannabis, que atuava de forma analgésica para as dores causadas pela peste. 

A Igreja contra as curandeiras

Nessa época, a Inquisição medieval já estava acontecendo, e acreditava-se que a peste negra, bem como todos os males da humanidade, eram uma punição de Deus ou uma ação do diabo.

Portanto, tudo recaía sobre a esfera do divino, inclusive as curas. Era inaceitável para a Igreja que mulheres pagãs pudessem criar medicamentos (que funcionavam!) com ervas.

Na visão do catolicismo, isso era visto como heresia, e essas mulheres passaram a ser consideradas bruxas, com poderes maléficos. 

A Dra. Catherine Stolley, uma socióloga, pesquisadora e escritora americana, comenta que “a Igreja e os médicos (muitos da elite católica) não foram capazes de conter as doenças e mortes causadas pela Peste Negra e as epidemias que se seguiram. Para a desaprovação da elite governante, as pessoas se voltaram para mulheres sábias em busca de ajuda, já que a Igreja não as estava ajudando. A Igreja também percebeu isso como um desafio à sua autoridade. Embora médicos não tivessem melhor conhecimento sobre o controle de doenças do que essas mulheres, o testemunho deles foi usado contra muitas bruxas acusadas. Cabia aos médicos dizer se uma doença era fruto de bruxaria ou de causa biológica. Por exemplo, uma doença resultante de feitiçaria não poderia ser aliviada com medicamentos tradicionais”.

Ou seja, qualquer doença que os médicos não conseguissem curar, passou a ser atribuída às mulheres curandeiras (as bruxas). 

Os rumores de que essas mulheres sábias infectaram intencionalmente cidades europeias para minar e destruir reinos cristãos, se espalhou rapidamente. 

Perseguição às bruxas e às plantas mágicas

Em meados do século XV, o Papa Inocêncio VIII ordenou que as bruxas fossem perseguidas, torturadas e mortas (muitas foram queimadas vivas). Ele deixou claro que parteiras e herbalistas poderiam ser consideradas bruxas.

De acordo com Ernest Able, autor do livro ”Marijuana: The First 12,000 Years” (Maconha: os primeiros 12.000 anos), o papa também condenou especificamente a cannabis em 1484, considerando-a uma erva de “sacramento profano” das massas satânicas, e proibindo seu uso como medicamento.

Qualquer planta que tivesse ”propriedades mágicas” passou a ser condenada. 

Acusações de posse de ervas com essas propriedades, mesmo para fins estritamente medicinais, se tornou motivo para queimar as herbalistas vivas. 

Em seu livro ”The Dark Side of Christian History” (O Lado Negro da História Cristã), a autora Hellen Ellerbe explica que “A Igreja incluiu em sua definição de feitiçaria qualquer pessoa com conhecimento de ervas, estabelecendo que aqueles que usavam ervas para curas, o faziam por meio de um pacto com o Diabo, seja explícito ou implícito”. 

A partir daí foi criada a figura negativa da feiticeira má, a bruxa que faz magia negra e compactua com Satã, mulheres que devem ser perseguidas e mortas a qualquer custo. Imagem, esta, perpetuada até hoje.

(Imagem: reprodução Quartz)

Inquisição e Guerra às Drogas

É interessante notar que, ainda hoje, o conservadorismo cristão condena o uso de qualquer planta psicoativa, incluindo maconha, peiote, cogumelo, ayahuasca, e por aí vai. 

A Igreja Católica teve um papel importante na história do proibicionismo, sobretudo com sua moral conservadora, censurando aqueles que buscassem estados alterados de consciência. 

O curioso é que, segundo a própria lógica da Bíblia, foi o deus cristão quem criou todas essas plantas e ”ervas mágicas” tão condenadas pela Igreja. O que só prova como é irracional a perseguição e condenação de substâncias provenientes da natureza.

Fonte: Cannabis Culture

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