O tetrahidrocanabinol é apenas um dos mais de 100 canabinóides encontrados na cannabis, mas durante décadas foi considerado o principal (e exclusivo) componente psicoativo da planta, o que gerou muita controvérsia em torno da planta Cannabis Sativa L.

Por dentro do THC

“THC” é uma nomenclatura comum, mas existem vários estados do ∆-9-Tetrahidrocanabinol relevantes para o uso de cannabis. A planta cannabis não produz THC, ela produz ácido tetrahidrocanabólico, ou THCA. Este é o precursor não psicoativo do ∆-9-THC, que é criado quando o THCA é descarboxilado pelo calor. Esse processo também ocorre naturalmente quando uma planta atinge a maturidade. 

(Imagem: reprodução Health Europa)

É por isso que consumir cannabis sem ”aquecer”, embora potencialmente benéfico, não fornecerá efeitos psicoativos. Nem quando os buds ainda estão nos primeiros estágios de floração do cultivo.

Muitas pessoas descarboxilam a cannabis antes de usá-la para fazer alimentos precisamente para transformar THCA em ∆-9-THC, garantindo assim que os edibles deixem [email protected] 

Acredita-se que é por isso também que a maconha acaba sendo vaporizada, ao acender (e aquecer) a erva através do baseado, bong, pipe, o THCA é transformado em THC, causando os efeitos psicoativos. E, claro, você não vai fumar um bud que acabou de brotar na planta, você espera ele maturar para colher e poder consumir. Por isso também é importante deixar a cannabis curar após a colheita, pois quando a planta está mais madura, ocorre a transformação do THCA em THC.

No nosso organismo, o ∆-9-THC é posteriormente transformado em metabólitos do THC. O metabolismo pega o ∆-9-THC e cria um novo composto, 11-hidroxi-THC, que é basicamente inerte, mas permanece no corpo por até três meses.

THC medicinal?

Hoje, vemos muito a dicotomia entre ”cannabis medicinal” e ”cannabis recreativa”, quando na verdade a planta é uma só, Cannabis Sativa L., e pode ser aplicada para diversas finalidades, como por exemplo pode ser utilizada para fins medicinais, industriais e para fins de recreação.

O THC sempre foi muito associado ao segundo caso, por ser um dos responsáveis por ”deixar [email protected]”. Houve uma separação do universo do CBD, que acabou ficando associado aos efeitos terapêuticos na planta.

Porém, apesar do THC e do CBD agirem de maneiras distintas sobre o sistema endocanabinóide, eles atuam de maneira complementar. Portanto, devido ao efeito entourage, o THC também tem um papel importante quando a planta cannabis é utilizada com fins medicinais. Apesar do CBD ser o protagonista, o THC tem uma função vital de fornecer um conjunto diversificado de benefícios medicinais associados ao consumo da planta maconha. 

Claro que em alguns casos clínicos, os efeitos e propriedades do CBD são mais indicados e alguns efeitos do THC devem ser evitados, e o contrário também se aplica. Para alguns pacientes, o THC, bem como outros canabinóides, é necessário no tratamento. Afinal, a planta é um conjunto de compostos químicos, que não devem ser separados entre ”bons e aceitáveis” ou ”maus e intoleráveis”. 

(Imagem: reprodução Herbliz)

Dessa forma, a distinção entre ”maconha medicinal” e ”maconha recreativa” apenas com base na separação desses canabinóides em tais categorias é falha

O maior problema desse cenário é que o CBD acaba sendo liberado e comercializado sob o argumento de que ”não vai te deixar [email protected]”. Essa dicotomia entre ”CBD bom” versus ”THC mal” acaba perpetuando o estigma em torno da maconha. 

(Na embalagem do produto lê-se ”CBD Puro” ”Livre de THC” | Imagem: reprodução The Conversation)

Por que o THC é polêmico?

Exatamente pelo fato do tetrahidrocanabinol ter sido associado exclusivamente à sensação de ficar [email protected], ele passou a ser visto com maus olhos pela sociedade. Ficar ”[email protected]” era visto como um ato anti-establishment, portanto, setores conservadores optaram por proibir a brisa

Logo após o THC ter sido sintetizado por Mechoulam, em 1964, acabou entrando para lista de substâncias psicotrópicas controladas pela Organização das Nações Unidas (ONU), junto ao ácido lisérgico (LSD) e mescalina, por exemplo. 

Buscar estados alterados de consciência era algo visto como uma ameaça ao sistema. Portanto, substâncias que causavam alterações da percepção passaram a ser proibidas. 

O mais curioso é que o THC acabou sendo o único ”culpado” por causar a brisa. Apesar de suas propriedades estarem, de fato, associadas às sensações de ficar ”[email protected]”, ele não é o único responsável. Estudos revelam que o conjunto dos canabinóides e terpenóides também contribuem para o mix de sensações que sentimos quando fumamos um baseado ou comemos um edible

(Imagem: reprodução Freepik)

Pela normalização da planta

O problema é que os pré-conceitos em relação ao THC acabaram se estendendo para os sistemas regulatórios sobre a cannabis. Por exemplo, existem legislações que só permitem o cultivo da planta cannabis com menos de 0,3% de THC ou apenas a venda de produtos com CBD isolado. Em muitos países, o THC segue banido, enquanto outras partes da planta podem ser aproveitadas e comercializadas. 

Imagine ter que cultivar um maracujá com uma concentração mínima dos componentes que proporcionam os efeitos calmantes da planta. Parece ilógico, não é? É mais ou menos o que acontece com a maconha, alguns de seus componentes seguem proibidos, e outros são amplamente comercializados. 

Por isso, novas descobertas e a divulgação de estudos sobre a maconha são de extrema importância para que fique cada vez mais claro que a planta Cannabis Sativa L. é uma espécie etnobotânica com propriedades únicas, e seus benefícios podem ser aproveitados em conjunto, é quase irracional proibir o THC, mas permitir o CBD ou o cânhamo. 

Porém, há de se convir que a história maconha, sobretudo seu proibicionismo, é carregada de fatores incoerentes. Portanto, segue a luta pela normalização dessa planta, alvo de tantas polêmicas desde o século passado. 

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