Em celebração ao Dia Internacional de Combate à Homofobia (17/05), batemos um papo com Bixa Cultiva, exemplo claro de como a cannabis supera barreiras, preconceitos e, além de melhorar a vida das pessoas, promove a aceitação e a unificação.

É provável que você já tenha conhecido alguém através da maconha. E se ainda não aconteceu, vai acontecer. E já que a cannabis é capaz de unir as pessoas, uma faceta única dessa planta que muda a vida de quem consome é a inclusão e sua capacidade de socialização. 

A cannabis pode e deve atingir cada vez mais espaços sociais, independente do credo, orientação sexual, descendência ou posicionamento político. Seja quem for, a maconha acolhe. E nessa dinâmica de identificação, o contexto canábico tem o dever de acolher, apoiar e celebrar todas as particularidades. 

Hoje, em celebração ao Dia Internacional de Combate à Homofobia, batemos um papo com Bixa Cultiva.

Morador da cidade de São Paulo, Bixa Cultiva, aos 35 anos, é autônomo e deseja empreender no mercado canábico. Seu desejo é oferecer o serviço de cultivo a pessoas que querem fumar flores, mas não podem ter a planta em casa. 

Infelizmente, isso ainda não é legalmente possível no Brasil, devido ao atraso legislativo que acaba podando qualquer esperança. Bixa Cultiva comenta que esse cenário desencorajante tem despertado o desejo de sair do país novamente no ano que vem, confira a entrevista completa abaixo.

Desde quando você é usuário de cannabis?

Minha experiência com cannabis foi em minha primeira viagem internacional, a Buenos Aires, em 2008. Eu fui a um concerto de tambores, num lugar chamado Bomba Del Tiempo e havia uns cinquenta músicos, de repente uma garota chegou no nosso grupo e ofereceu um beck… Na primeira eu deixei passar, mas na segunda eu disse “por que não?”, e fumei.

Foi uma experiência mágica, sério! Teve um significado muito especial pra mim, foi esse um dos momentos mais felizes que tenho lembrança, o lugar, as pessoas, a liberdade… De lá pra cá, nunca parei totalmente, às vezes cheguei a ficar meses sem fumar por conta de viagens constantes a lugares de difícil acesso a erva, como por exemplo na Ásia. Mas aqui no Brasil, a maconha tem me ajudado muito a atravessar a pandemia.

Quando você assumiu a homosexualidade? 

Eu me assumi aos vinte e dois anos. Foi a melhor coisa que fiz, me tornei muito mais forte depois disso. Comecei a encarar o mundo a partir da minha perspectiva e me encontrei. Não tinha mais a necessidade de mentir em casa sobre o nome da balada, abandonar essa necessidade foi uma libertação. Levei isso comigo pelo mundo, por todos os países que passei, nunca voltei pro armário em nenhuma situação

Quais os maiores desafios, enquanto canabista e homosexual? 

Em 2017, fui a um casamento em Alexandria, no Egito, eu estava com meu ex e nos deram um quarto com duas camas de solteiro. Fui brigar na recepção do hotel, já que eu havia feito reserva para cama de casal. Tive que esclarecer que não tinha sido um engano, estava correto. O hotel em seguida me transferiu, mas a repressão à população LGBT no Egito é gigantesca, um casal de gays egípcios jamais sonharia em fazer o que eu fiz. Fiquei muito incomodado com isso enquanto estive por lá. 

Quais os lugares mais exóticos que você já fumou um?

Um baseado muito especial que fumei no Templo do Sol, em Angkor Wat, no Camboja, foi f*da demais! A vibe, o pôr do sol… esse templo foi construído pra adorar o sol e está lá há séculos e séculos! 

Também fumei um baseado fora da estação de trem em Pequim, Beijing Xi. Eu estava voltando da Europa e levava comigo dois beques que tinham sobrado de Amsterdam. Encontrei com uma amiga no aeroporto e fomos tomar o trem. Fumamos antes e foi uma delícia, entramos no trem, tomamos um chá e dormimos até lá. 

Poderia falar de uns lugares no Laos ou na Colômbia, mas vou falar de Amsterdam. 

Essa cidade que aprendeu a lidar com temas que para outras sociedades são tão complicados como as drogas e a prostituição, nos ensina por consequência, que não só é possível regular e gerar receita sobre essas atividades como deixa claro que esse é, talvez, o único caminho. Amsterdam é um 7 x 1 contra o conservadorismo.  

Alguma experiência marcante nessas andanças? 

Meus últimos doze anos têm sido de experiências marcantes, foram tantas coisas que vivi, tantas viagens… Só posso dizer que sinto que o mundo fez de mim uma pessoa muito melhor, a mentalidade social aqui no Brasil me forçou conceitos que hoje percebo tê-los perdido pelo mundo, me questionando, conhecendo. Acho que em geral o que vale ressaltar foram algumas amizades que fiz pelo caminho, jantares, garrafas de vinho, noites loucas, passeios, praias, festas, bares… Tanto a noite como a praia são parte das experiências mais marcantes que tenho, sem dúvida. E sempre chapado, praia e beck, festa e beck, é vida!

Quais as principais diferenças, no aspecto canabista, do Brasil para o resto do mundo?

Vejo diferenças gritantes em todos os aspectos da cena canábica. Como por exemplo, o estigma social que no Brasil a palavra “maconheiro” ainda carrega, os “enquadros” que a polícia costuma dar. E aí, a gente pode começar a falar da nossa legislação e da quantidade de gente que está na cadeia por nada, olha o atraso pro país. 

No âmbito acadêmico, o Brasil está ficando para trás e as tecnologias estão sendo desenvolvidas pelos outros países, seremos mais uma vez um país que tinha um enorme potencial para o mercado mas ficou pra trás por culpa de gente pequena, como nosso atual presidente. 

O mercado de ações, o mercado de CBD e tudo mais que vem a reboque da legalização, os coffeeshops, quer dizer, tudo isso são as diferenças entre o que o Brasil vive com relação a Cannabis e o que os países líderes no assunto vivem. 

Você já passou por alguma situação desagradável, enquanto canabista e homosexual?

As únicas duas vezes que senti algum tipo de preconceito, tanto com relação à maconha quanto com a minha sexualidade, foram aqui no Brasil.  

Quando surgiu a iniciativa de cultivar sua própria erva?

Faz muito tempo que tenho curiosidade em cultivar minha própria erva. Queria saber como é vê-la crescendo, acompanhar as fases da planta, ver os buds formando, enfim.. Tudo. Eu sempre fui fã de plantas em geral e com a pandemia e tanto tempo em casa, achei que era a hora de começar. Hoje tenho cerca de dez plantas, e uma amnésia outdoor minha tem mais de dois metros, é uma loucura. Tô adorando. 

Qual a mensagem que você deixa para quem deseja se assumir canabista cultivador, ou homosexual, que se alguém tivesse te dito, teria facilitado algum processo nessas decisões?

Acho que a mensagem que eu quero deixar é: seja, viva! Quanto antes você se entregar a você mesmo melhor será. Eu vim pro Instagram querendo reivindicar um espaço para bixas maconheiras, sinto que a maconha é muito mais relacionada a uma cultura masculina, as gírias do meio, por exemplo, deixam isso meio claro. Então acho fundamental estar aqui, estar presente, ir ganhando espaço, tanto porque acredito que a comunidade LGBT  tem uma relação muito próxima com a maconha, como porque vejo a importância de ocupar esses espaços os quais as pessoas não esperam encontrar com a gente.

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