Produzidos em laboratório, os canabinóides sintéticos são de 80 a 100 vezes mais potentes que a maconha natural, de acordo com especialistas. 

O ano era 2018, quando 3 pessoas morreram após ter relatado o uso de canabinóides sintéticos no centro de Illinois, Estados Unidos. De acordo com o Departamento de Saúde Pública de Chicago, 114 pessoas apresentaram efeitos graves após relatar o consumo dessas substâncias.

Em entrevista para o G1, o químico Guilherme Marson comenta sobre a substância. Segundo Guilherme, a maioria destas drogas sintetizadas de forma clandestina é produzida sem nenhum controle rigoroso contra impurezas, solventes e procedimentos de qualidade.

“Tem uma molecada que se mete a fazer ciência em laboratório porco. Eles misturam tudo, como quem faz bolo, e o resultado é que as pessoas tomam essas coisas sem saber o que tem ali, nem se foi testado”, disse. Além das mortes, o IDPH relatou efeitos colaterais graves, como tosse com sangue, sangue na urina, sangramento do nariz e das gengivas. 

Meses depois, em New Haven, próximo à Universidade de Yale (EUA), mais de 70 pessoas sofreram uma overdose em 24 horas. O motivo seria um lote de maconha sintética, conhecida como K2, misturada com um tipo de opióide, chamado fentanil. 

Desde então, os Estados Unidos têm sofrido uma severa crise dos opióides, mesmo após a legalização da prescrição de cannabis em diversos estados. Após a legalização, notou-se a diminuição das prescrições de medicamentos opióides. O que intriga é a potência dessas drogas sintéticas, quando combinadas a substâncias como fentanil.

De onde surgiu

Na década de 1990, o professor John W. Huffman, da Universidade Clemson (EUA), iniciou pesquisas para a maioria dos canabinóides sintéticos que hoje são usados como entorpecentes.

Ao criar uma série de estruturas para tentar ajudar no tratamento de câncer, esclerose múltipla e HIV, seu experimento foi recusado, logo não utilizado pela medicina, e assim, passaram para o mercado ilegal de drogas.

Mesmo com o nome semelhante, os canabinóides sintéticos diferem da cannabis desde sua essência até o efeito. Como substâncias produzidas em laboratório e usadas para consumo ilícito, o controle de qualidade e a projeção da potencialidade prejudicial são inexistentes, promovendo, assim, uma verdadeira bomba relógio.

Essa substância que é pulverizada em ervas, e até em pedaços de papel, potencializa o “efeito da erva”, e por serem irregulares, é impossível mensurar ou prever a composição. 

No Brasil 

Se engana quem acha que no Brasil não há consumo dessa substância. 

A maioria dos canabinóides são proibidos aqui, e assim como nos Estados Unidos, dezenas de fórmulas recriam estruturas parecidas, mas com uma pequena parte da molécula diferente, para driblar a fiscalização.

Entre os anos de 2019 e 2020, de acordo com dados da Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo (SAP), as apreensões da droga K4 (mais um tipo de maconha sintética) dispararam nos presídios da região de Presidente Prudente (SP). Somente em 2019, houve 41 apreensões, sendo 35 com visitantes de presos e 6 em correspondências. 

Em 2020, houve aumento de mais de 500%, passando para 259 apreensões, sendo 24 com visitantes de presos, 234 em correspondências e 1 em área externa do presídio.

A substância K4 em si, não é a droga, e sim uma forma de produção em que a droga é manipulada para forma líquida e, borrifada no papel, na tentativa de burlar a vigilância da penitenciária. Nas unidades prisionais da região de Presidente Prudente, as apreensões desse entorpecente têm sido cada vez mais comuns.

Atualmente, têm se estendido ao uso de outras substâncias entorpecentes, psicotrópicas, precursoras ou sob controle especial, e por se tratar de uma substância com efeito até 100 vezes maior do que a maconha convencional, seu poder viciante é muito mais agressivo e destrutivo ao organismo. 

Além disso, outros dois fatores que sobressaem são o aspecto discreto e a facilidade de consumo, já que basta colocar um pedaço de K4 na boca e esperar que a droga seja dissolvida.

A conclusão de tudo isso não poderia ser diferente: é urgente que sejam debatidas as políticas antidrogas e antiproibicionismo, para assim diminuir a população carcerária, e evitar a disseminação desse tipo de substância. Seguimos esperando dias mais verdes.

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