A maternidade, por si só, pode ser um processo solitário. Porém, ao se assumir maconheira, sendo mãe, a autora do livro Diário de uma mãeconheira enfrentou diversos dilemas. Conheça um pouco da história de Maíra Castanheiro e entenda o por que da importância de espaços de diálogo para mães no ambiente canábico.

Mãe, Maíra, Mãeconheira

“São situações que todos passam, vários perfis e idades se identificam”. É assim que Maíra descreve sua escrita. Para ela é incrível que as pessoas se reconheçam em suas obras, mesmo não se identificando com a literatura. “A literatura não é um caminho distante. O caminho é para todos, é simples, é cotidiano. Esse é o prazer”.

Autora de duas obras, mestre em história e graduanda em Pedagogia, Maíra Castanheiro, também conhecida como Mãeconheira, é puro êxtase! 

Puro êxtase, pura erva, pura ira, pura feminilidade. Através de sua escrita criativa, tem narrado situações e desafios que enfrentou e enfrenta como mãe em seu primeiro livro “Cartas para Maria Alice”. Escrito desde a gestação, conta, através de sua lente materna, os episódios que compõem a trajetória das duas. De forma lúdica, com tons de poesia e literatura, Maíra faz das tripas coração e ressignifica acontecimentos que para muitos seriam trágicos. Para ela, o tempo passa e as coisas mudam. Nem sempre para melhor, mas sempre para onde a vida deve levar. Novos caminhos, novos aprendizados, novas experiências que nos levam a redescobrir, quantas vezes for necessário.  

Ao se tornar mãe, se manteve ativa em redes sociais e em sua página do Facebook dividia conteúdos sobre parto humanizado, criação com apego, amamentação e tantas outras vivências maternas. Conforme Alice crescia, ela se aprofundava em novos assuntos, novas fases, novos rumos. 

Quando a filha tinha dois anos e meio, veio a separação. Assim, o grupo no Facebook se tornou espaço de desabafo, ambiente ideal para sua escrita criativa e curativa. Porém, às vezes, o destino é mais hostil do que se possa imaginar. 

O fato de ser privada de acompanhar presencialmente o primeiro e mais importante setênio da vida da filha deu origem à obra, Diário de uma Mãeconheira, que traz em suas linhas relatos sobre a gestação, a maternidade, a distância e a guarda compartilhada. Histórias sobre corres, aventuras e reflexões de uma mãe corajosa e livre. 

O mesmo espaço que comportava desabafos e, de alguma maneira, colaborou para descarrego de neuroses, se tornou uma ferramenta de culpa e condenação, ao ter prints do conteúdo utilizados no processo judicial, que concedeu ao pai a guarda provisória. O processo ainda está em andamento, mas as duas seguem afastadas.  

Diálogos francos e legítimos

Mãe que usa drogas sem dependência e não esconde suas reflexões, ainda é uma mãe que usa drogas. “Maconha, ok. Gera impacto, mas ok. Outras substâncias? Não! Diálogos francos e legítimos, sobre experiências e preferências que envolvam substâncias alucinógenas, narrados da lente de uma mãe? NÃO PODE”, comentou Maíra ao se referir sobre as dificuldades de pertencimento aos espaços de debate literário. 

As bads vem por conta do capitalismo, do machismo. Se assumir como mãe que usa drogas e que não mora com a filha”, explica Maíra, ao justificar que sim, vive muito bem com seu estilo de vida, mas não com a saudade que sente, e que segundo ela (e ao bom senso) não deveriam ser motivos suficientes para afastar uma mãe de uma filha. 

Ao compreender que o conteúdo do Diário tinha potencial de se transformar em uma obra, foi em busca de publicá-lo e, assim, começou outro desafio. 

Não foi acolhida no meio editorial por não ter livros, por ser uma mãe que não está com a filha e, claro, por ser legítima o suficiente para assumir que usa “drogas”. 

Mas o destino é volátil o suficiente para transformar sorrisos em decepções. E por que não decepções em sorrisos? 

Através de um financiamento coletivo, junto de alguns parceiros, foi viabilizada a publicação de seu segundo livro, o Diário de uma Mãecohneira, que sairá pela MolusComix. O financiamento coletivo no meio canábico ofereceu o acolhimento e diálogo que ela procurava e, mais ainda, o espaço que merecia.

O processo deixou de ser um livro e se transformou em um movimento, que através de lives em redes sociais, gerou debates e narrativas a partir das perspectivas social, política e econômica, promovendo, assim, espaço para outras mães expressarem sua história. 

Hoje, mães a procuram e compartilham suas vivências, enxergando em Maíra um exemplo de como resistir e progredir. “As mulheres me procuram e contam que se sentem representadas”, completa Maíra. Não à toa, o posfácio do livro foi escrito por uma seguidora que também é mãe e maconheira e que ao ler os relatos e desabafos de Maíra se inspirou para escrever também. Assim se dá a abertura para novas pessoas, ao dar sentido ao que se escreve, já que muita gente se identifica. 

O retorno, que abriu espaço ao diálogo, às reflexões, a tantas histórias que chegam até ela, demonstra não apenas o crescimento do Diário, ao se tornar uma obra pública, mas também adere a função de ferramenta de autoconhecimento, ao elaborar seu próprio entendimento da história e colaborar para novas narrativas. 

Talvez seja sobre isso, sobre inspirar, botar a cara a tapa (e quanto tapa, não é mesmo?). São trocas legítimas que permitem que muitas mães compartilhem suas histórias e, assim, esvaziem a bagagem caótica (mas muito gratificante) das experiências maternais. São espaços abertos para questionar o rumo historicamente misógino que o mundo tomou e o papel das mulheres no combate a esse machismo. 

O primeiro livro “Cartas para Maria Alice” foi publicado pela editora Aldeia do Saber e está disponível no site da editora. Já a segunda obra, “Diário de uma mãeconheira”, está quase saindo do forno e será publicada no Dia das mães, 09 de maio, pela editora MolusComix, mas já está disponível para pré-venda com desconto.

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